A cicatriz é o
tecido novo que se forma durante o processo de cura de uma
ferida. A natureza a utiliza como um meio para fechar as lesões
do organismo quando não é possível a regeneração perfeita dos
tecidos, que só existe em poucos tecidos humanos, como é o caso
da epiderme. Assim, explica-se porque em uma queimadura de 1o
grau, com destruição somente da epiderme, a pele regenera-se
completamente e não ficam marcas da lesão, enquanto após uma
incisão cirúrgica, na qual a ferida provocada atinge toda a pele
(epiderme + derme), tecido o subcutâneo e, eventualmente,
camadas mais profundas, o resultado inevitável é uma cicatriz.
É errado
dizer que o cirurgião plástico remove a cicatriz aparente sem
deixar marca. O que se pode esperar de um cirurgião competente é
que ele tente obter a melhor cicatriz possível, o que depende de
muitas variáveis.
Há diferença
entre “boa cicatrização”, e cicatriz “esteticamente boa”. “Boa
cicatrização” é apenas a capacidade do organismo de fechar a
ferida em tempo normal e se opõe à “má cicatrização”, que ocorre
em organismo debilitado ou em paciente com desnutrição, causando
demora no fechamento da lesão. Não tem nada a ver com o que os
cirurgiões plásticos chamam de “boa cicatriz”, que é aquela
pouco visível e portanto mais estética.
O ideal
estético é não existir nenhuma cicatriz. Trabalha-se em geral
com o conceito de que haverá sempre uma cicatriz se a incisão
cirúrgica for feita em qualquer local do organismo. Entretanto,
procura-se conseguir uma que seja a mais fina, menos saliente,
de cor mais aproximada com a da pele normal e que menos apareça,
ou seja: os fatores responsáveis por uma cicatriz esteticamente
melhor ou pior estão ligados à técnica aplicada pelo cirurgião,
à área do corpo onde foi feita a operação, à idade, à raça e ao
tempo decorrido desde a cirurgia.
Cicatrizes
nas pálpebras e face tendem a ser bem menos visíveis a médio
prazo do que as no tórax e no abdome – isso no mesmo paciente. A
idade é um fator importante também. Ao contrário do que se
acredita, as cicatrizes nos idosos são muito menos aparentes que
nos adultos e nestes menos evidentes do que nas crianças, quando
são freqüentemente hipertróficas, embora se tenha a idéia de que
a criança tem “boa cicatrização”. Há certa predisposição racial,
pois negros e amarelos têm maior tendência a cicatrizes
esteticamente piores, quando comparadas a brancos nas mesmas
condições
Deve-se levar
em conta que a cicatrizes recentes são sempre aparentes, mas
após algum tempo tornam-se melhores esteticamente. O
conhecimento desses fatos é importante para informar os
pacientes, evitando-se, assim, mal- entendidos.
O
que realmente é uma cicatriz?
A
cicatrização é o processo biológico básico através do qual o
organismo promove o fechamento da lesão de qualquer tecido, no
nosso caso, do revestimento cutâneo. A cicatriz é a resultante
do processo. A maioria dos autores divide a cicatrização normal
em três fases: inflamatória, fibroproliferativa e de maturação.
Após a fase
inicial de inflamação, com presença de muitas células, entra-se
na fase fibroproliferativa que se inicia no segundo ou terceiro
dia, quando os fibroblastos produzem substância gelatinosa e
várias proteínas, das quais a mais importante é o colágeno, uma
proteína natural componente do chamado.
tecido conectivo que une os outros tecidos entre si.
Na
cicatrização, o colágeno vai sendo depositado na ferida,
formando fibras que vão se tornando cada vez mais firmes, dando
o aspecto típico da cicatriz, sobre a qual ocorre a migração e
proliferação das células epiteliais das bordas da ferida, que
promovem a regeneração da epiderme, fechando, assim,
completamente a lesão.
Na fase de
maturação há progressiva diminuição do número dos vasos
sangüíneos e dos fibroblastos. A redução na vascularização
explica a evolução progressiva da cor da cicatriz, que passa do
avermelhado para o branco. Há reorientação do colágeno que,
inicialmente muito duro, amolece com o tempo, dando melhor
qualidade tátil à cicatriz.
A duração do
processo de proliferação e de maturação é muito variável de
indivíduo para indivíduo e, conforme o tipo de operação, o
processo proliferativo dura, em média, cerca de três meses. A
partir daí, com a maturação, chega-se ao aspecto final da
cicatriz, seis meses a um ano depois da cirurgia.
Não se deve,
portanto, falar em quelóide até que se passe esse tempo e nem se
indica nenhuma reoperação antes desse período.