Efeitos do
hipoestrogenismo e do envelhecimento sobre a pele
Effects of hypoestrogenism and elder on the
skin
Adolfo Vitor Dias Sauerbronn
Angela Maggio da Fonseca
Vicente Renato Bagnoli
SUMARY
This article comprises a literature revision
on the effects of several factors on human skin ageing,
including hypoestrogenism.
Key-words: skin, menopause, hypoestrogenism,
elder
SUMÁRIO
Este
artigo consiste numa revisão da literatura sobre os efeitos
de diversos fatores influenciadores do envelhecimento
cutâneo, incluindo hipoestrogenismo.
Unitermos:
pele, menopausa, hipoestrogenismo, envelhecimento
Introdução
O
climatério corresponde a um período de transição entre a
menacme e a senilidade sendo devido, basicamente, ao gasto
progressivo dos folículos ovarianos até que ocorra seu
esgotamento, quando então instala-se como resultante, o
hipoestrogenismo e a menopausa. Os limites do climatério não
são claramente estabelecidos, entretanto, acredita-se que o
início ocorra ao redor dos 40 anos e o término, aos 60 - 65
anos de idade, podendo ser classificado em : pré, peri e
pós-menopausal. Por outro lado, sabe-se que o último período
menstrual que caracteriza a menopausa ocorre, em média,
entre os 45 e 54 anos; em nosso meio, entre os 45 e 50 anos
. 1 Isso significa que a mulher irá viver
cerca de um terço de sua vida (20 a 30 anos) no período
denominado climatério.
O
hipoestrogenismo da pós-menopausa tem sido cada vez mais
relacionado ao aparecimento de diversos sinais e sintomas,
implicando na piora da qualidade de vida (Sá e cols., 1996).
2 À despeito da relativa pequena
importância atribuída às mucosas, pele e seus anexos na
pós-menopausa, os mesmos também sofrem importantes
alterações influenciadas pelo hipoestrogenismo que poderão
interferir no bem-estar da mulher. Essas alterações parecem
ser potencialmente reversíveis com a instituição da TRH.
Embora existam várias referências a esse respeito na
literatura científica, ainda existem certas controvérsias
sobre as influências da TRH sistêmica na pele em mulheres
menopausadas . 3
Considerações gerais sobre a
pele
Maior órgão do corpo humano, a pele tem participação
importante na proteção contra agressões do meio ambiente,
impedindo a perda de fluidos corpóreos essenciais, a invasão
de agentes tóxicos, microorganismos e quantidades excessivas
de radiação ultravioleta, protegendo contra correntes
elétricas de baixa voltagem, forças mecânicas e temperaturas
elevadas .
4Histologia
da Pele
A pele é
composta basicamente, por duas camadas principais : a
epiderme com sua membrana basal e a derme, abaixo das quais,
encontra-se o tecido adiposo.
Epiderme
A epiderme
é epitélio estratificado, no qual se reconhecem distintas
camadas celulares; ela está em contato direto com o meio
ambiente, sendo formada por camadas ordenadas de células
chamadas queratinócitos, cuja função básica consiste em
sintetizar queratina
Derme
A derme é
a principal camada da pele e, embora também apresente
diversos tipos de células, é muito mais fibrosa que celular;
seu mais importante constituinte são as fibras colágenas e
elásticas (Arnold e cols., 1990).
5
As fibras
colágenas
A pele
humana contém nove diferentes tipos de colágeno, sendo que
aproximadamente 80% corresponde ao tipo I e 15% ao tipo III
. 6 O colágeno I é a principal molécula
constituinte da pele, correspondendo a cerca de 70% de seu
peso desidratado; o colágeno III predomina na pele humana
durante o período fetal . 7 O colágeno
tipo IV é produzido pelos queratinócitos e secretado no
espaço extracelular ; 8 sua concentração
também diminui durante o processo de envelhecimento,
principalmente após os 35 anos de idade, apresentando
correlação inversa com a membrana basal, que aumenta em
espessura. Esse fato indica haver redução na atividade
metabólica da epiderme . 9 As fibras
colágenas são o principal fator responsável pela resistência
da pele. A diminuição da quantidade de
colágeno tipo I na pele leva à diminuição da espessura da
derme, tornando-a mais transparente e vulnerável a agressões
. 10
As
fibras elásticas
A fibra
elástica madura consiste basicamente de elastina e
microfibrilas, sendo a elastina, seu maior componente .
11 Estas fibras encontram-se dispostas na
derme de tal maneira a formarem uma rede, podendo ser
divididas em três tipos : as mais superficiais são as
oxitalânicas Erro! Indicador não definido., em
formato de taça com a concavidade voltada para a face
inferior da epiderme; logo abaixo, seguem as fibras
elaunínicas Erro! Indicador não definido., com
disposição perpendicular à epiderme e por fim, as fibras
elásticas verdadeiras Erro! Indicador não definido.
(ou maduras), dispostas paralelamente à epiderme,
localizando-se mais abaixo das fibras elaunínicas 12
(Figura 1). Somadas, as fibras elásticas
correspondem a cerca de 2 a 4% da pele desidratada,
contribuindo muito pouco com a resistência, deformação e
tensão, embora participem em certo grau, da elasticidade da
pele.
Figura 1 -
Desenho esquemático da pele e suas camadas. Destaque para as
fibras elásticas em verde.
Envelhecimento Cutâneo
Envelhecimento é um fenômeno multifatorial, composto por
várias etapas e caracterizado pela diminuição da habilidade
de um sistema em responder ao estresse endógeno e/ou
exógeno, seja(m) ele(s) exercido(s) através de agentes
químicos, físicos ou biológicos .
13
Vários são
os fatores que contribuem na determinação da aparência senil
da pele, dentre eles a carga genética, a toxicidade do meio
ambiente e a dieta, a exposição crônica e cumulativa a luz
solar, as forças mecânicas aplicadas ao tecido conjuntivo,
os hormônios e alterações do colágeno . 14
Dentre todos estes fatores, os mais importantes são a
exposição solar, a idade cronológica e a menopausa. O
tabagismo pode levar a isquemia crônica da derme, diminuição
dos níveis de colágeno e vitamina A; este último efeito pode
aumentar o impacto dos radicais livres sobre a pele .
16 Dessa maneira, o tabagismo pode aumentar
em 2 a 3 vezes o número de rugas faciais em homens e
mulheres caucasianos . 17 Tanto o
envelhecimento cronológico quanto o devido a exposição solar
estão relacionados à acentuada diminuição da vascularização
da derme . 18
Alterações
cutâneas relacionadas ao envelhecimento cronológico
O
envelhecimento celular parece ocorrer devido a célula
permanecer em repouso na fase G1/S da mitose. Existem
evidências indicando que as células senis sintetizam
proteína capaz de inibir a proliferação celular, pois quando
extraída e microinjetada em outras células, inibiu as
mitoses . 19 Certos genes conhecidos como
supressores tumorais controlam a replicação celular. Não
existem evidências que os mesmos apresentem-se com atividade
aumentada nas células senis, mas é possível que as proteínas
sintetizadas à partir do m-RNA codificado por esses genes
possam se acumular na forma ativa, inibindo a síntese de DNA
. 20 Além da ação dos genes inibitórios,
outros genes envolvidos na replicação celular podem estar
inibidos nas células senis . 2 As células
epidermais de Langerhans diminuem em número, acreditando-se
que isso dificulte a resposta imunológica da pele Os
fibroblastos da derme apresentam capacidade de replicação
limitada entre 50 a 100 duplicações, quando então, param de
replicar em resposta a fatores de crescimento. .
23
A análise
de fragmentos de pele não expostos a luz solar, mostrou que
o processo de envelhecimento da pele pode manifestar-se
através da diminuição do número de microfilamentos,
aparecimento de inclusões eletrodensas na matriz de elastina,
fragmentação e desintegração das fibras (Figura 2).
Figura 2
Alterações
da pele associadas ao envelhecimento cronológico*
* Extraído
e adaptado de
24
Fenômenos
influenciados pelos estrogênios, podendo sofrer influência
dos androgênios :
·
diminuição da espessura epidérmica (atrofia);
·
diminuição da espessura da derme (atrofia);
Fenômenos
provavelmente influenciados pelos estrogênios :
·
fragmentação das fibras elásticas.
Fenômenos
provavelmente influenciados pelos androgênios :
·
diminuição da produção de sebo;
·
diminuição do número e função da glândulas
apócrinas;
·
diminuição do crescimento dos pêlos .
Alterações
cutâneas devidas ao envelhecimento
solar
A
exposição excessiva a luz solar, é fator de extrema
importância no processo de envelhecimento cutâneo. O
mecanismo deve-se a radiação ultravioleta que agride a pele
Erro! Indicador não definido., sendo responsável pelo
aparecimento de rugas e sulcos, alterações da pigmentação,
telangiectasias, queratose actínica, carcinomas
basocelulares e espinocelulares além de, possivelmente, os
melanomas 24, (Callens e cols., 1996).
25 As lesões verificadas nas fibras elásticas da
pele exposta ao sol são do tipo degenerativo ) 26
(Braverman & Forfenko, 1982) .
27
Em estudo
que comparou a pele facial com a do antebraço em 170
mulheres saudáveis, verificou-se que a primeira
encontrava-se mais afilada e com menor elasticidade que a
segunda, principalmente na extremidade lateral dos olhos e
zigomas, áreas mais expostas a ação da luz solar, concluindo
que a luz do sol exerce efeito considerável na espessura e
propriedades físicas da pele .
28
Estudo
investigando a natureza do material elastótico de pele
submetida a exposição solar, verificou que o mesmo era
constituído principalmente, de elastina e proteínas
microfibrilares, com pequena presença de colágeno tipo I,
III e IV, sugerindo que a elastose solar origina-se,
basicamente de alterações das fibras elásticas 29
(Bernstein e cols., 1996). 30 A
derme com elastose solar apresenta degenerações basófilas em
sua porção superior; os feixes de fibras colágenas são
substituídos por material granular amorfo, de coloração
basófila (Lever e Schaumberg-Lever, 1990).
31
Os efeitos
da radiação ultravioleta foram estudados na pele das nádegas
de homens e mulheres, medindo-se as concentrações de 3
metaloproteases matriciais (enzimas proteolíticas envolvidas
na degradação das moléculas de colágeno expostas ao
envelhecimento solar). Demonstrou-se que a degradação das
fibras colágenas tipo I aumentava cerca de 58% após uma
única irradiação. Esses resultados sugerem que múltiplas
exposições a irradiação ultravioleta poderiam levar a
elevações permanentes das metaloproteases, contribuindo para
o envelhecimento solar 32 (Figura 3).
Figura 3 -
Alterações da pele devidas ao
envelhecimento solar *
* Extraído
e adaptado de
24
·
rugas e dobras
·
manchas solares
·
telangiectasias
·
pigmentação
·
púrpura senil
·
queratose actínica
·
carcinomas espinocelulares e basocelulares
·
melanomas
Com o
envelhecimento, a pele não exposta a luz solar apresenta
desaparecimento progressivo do tecido elástico na derme
papilar, principalmente das fibras oxitalânicas. Na pele
exposta a ação solar, particularmente nas pessoas que
apresentam pele branca, verifica-se a ocorrência de
hiperplasia, geralmente em torno dos 30 anos de idade, mesmo
quando a pele apresenta-se com aspecto normal, de modo que
praticamente nenhuma pessoa com idade superior a 40 anos
apresenta tecido elástico normal na pele facial. O número de
fibras está aumentado, encontrando-se mais espessas,
onduladas e entrelaçadas . 22
Alterações
cutâneas devidas ao
hipoestrogenismo
Erro!
Indicador não definido.
Existem
várias referências na literatura, que indicam haver possível
relação entre os esteróides sexuais e a pele Erro!
Indicador não definido. e seus anexos. A primeira
aparece em 1941, quando relatou-se possível associação entre
pele fina e osteoporose, sugerindo-se que ambos achados
poderiam ser devidos a atrofia generalizada resultante da
perda da função gonadal . 33
Posteriormente surgiram diversos outros trabalhos, a maioria
demonstrando o espessamento da pele em mulheres menopausadas
que receberam tratamento hormonal através de administração
tópica ou sistêmica.
A pele
apresenta receptores estrogênicos Erro! Indicador não
definido. e androgênicos (Stumpf e cols.,1976),
35 tendo sido relatadas maiores concentrações de
estradiol nas camadas basais da epiderme . 36
Em mulheres, a investigação dos efeitos dos hormônios
sexuais sobre o envelhecimento da pele concentram-se
basicamente nos estrogênios; nos homens, existem poucos
estudos sobre a influência da testosterona, embora não
existam trabalhos mostrando os efeitos do envelhecimento
sobre os receptores androgênicos, ainda que tenha sido
descrita diminuição da atividade da 5 -redutase com o
aumento da idade no prepúcio. Desse modo, a influência dos
androgênios nas alterações dos queratinócitos e fibroblastos
relacionadas ao envelhecimento ainda devem ser melhor
investigadas . 24
Estudando
a pele de mulheres hirsutas com idades variando entre 17 e
38 anos com a pele de mulheres normais, através de método
radiológico para medição da espessura e biópsia para a
quantificação de colágeno, verificou-se que a espessura da
pele estava aumentada de maneira evidente em algumas
mulheres do primeiro grupo, embora não se verificasse
aumento significante ao analisar este grupo no global.
Verificou-se ainda, aumento das concentrações de colágeno
nas hirsutas, embora o mesmo não fosse estatisticamente
significante . 37
Após a
menopausa as diferentes camadas da pele estão alteradas. A
camada córnea está marcadamente reduzida, a epiderme
subjacente está adelgaçada, apresentando achatamento das
cristas interpapilares e junção dermoepidérmica. A hipoderme
também poderá diminuir com a idade, agravando as condições
da pele . 38 Os mecanismos de alteração
mais importantes no envelhecimento cutâneo são a diminuição
das secreções endócrinas e o estreitamento das arteríolas
cutâneas. Estas alterações afetam as reações enzimáticas do
tecido conjuntivo e estruturas epiteliais, interferem com a
nutrição tissular e com o metabolismo dos tecidos colágeno,
elástico, adiposo e muscular (Fonseca e cols., 1995).
39 Assim, o hipoestrogenismo tende a acelerar o
envelhecimento cutâneo, tal como o faz no leito vascular e
ossos. A ausência de progesterona aumenta o impacto dos
androgênios nas glândulas sebáceas, pêlos corpóreos e
cabelos. A ausência de estradiol Erro! Indicador não
definido. diminui a atividade mitótica da camada basal
da epiderme, reduz a síntese de colágeno Erro! Indicador
não definido. e, provavelmente, a quantidade de fibras
elásticas. Isso contribui para o adelgaçamento de toda a
junção dermoepidérmica, com perda do viço e a degradação das
propriedades mecânicas, em especial, a resistência a choques
mecânicos, além de diminuição progressiva da pilosidade,
principalmente axilar e pubiana. O hipoestrogenismo pode ser
espontaneamente atenuado pela síntese local de estradiol no
tecido adiposo . 42
Os efeitos
proliferativos dos estrogênios no epitélio vaginal já são
conhecidos há bastante tempo . Recentemente demonstrou-se
através da análise simultânea de esfregaços de mucosa
conjuntival e vaginal em diferentes fases do ciclo, que
ambos epitélios sofrem as mesmas influências estrogênicas,
embora o primeiro, em menor grau . 44 É
provável que de modo semelhante, os efeitos proliferativos
estrogênicos se estendam a outros epitélios, tais como as
mucosas intestinais, podendo neste caso, interferir
positivamente em certos aspectos do metabolismo digestivo.
Discussão
Embora a
idade cronológica contribua para a perda de colágeno, seus
efeitos não se comparam aos do hipoestrogenismo prolongado.
De fato, um dos efeitos mais importantes dos estrogênios na
pele é sua ação sobre o colágeno. Quando exposta ao regime
de hipoestrogenismo, a pele feminina apresenta perda de
colágeno tanto maior quanto for o tempo de exposição e isso
pode ser revertido total ou parcialmente, dependendo da
gravidade da perda e, evidentemente, do tipo de tratamento
empregado. Os efeitos estrogênicos no colágeno cutâneo foram
comprovados em diferentes regiões do organismo ) 45
(Brincat e cols., 1987a) 46 (Brincat
e cols., 1987b). 47 Esses resultados
aplicam-se principalmente ao colágeno tipo I, principal
constituinte da derme, entretanto, verificou-se que as
concentrações de colágeno tipo III também respondem
positivamente a administração estrogênica .
48
A epiderme
funciona como barreira contra a desidratação da pele e de
todo o organismo. Sabe-se que a capacidade de retenção
hídrica do estrato córneo está diminuída em mulheres
menopausadas e essa característica pode ser revertida
através do tratamento estrogênico. Interessante é
destacar-se o fato do enfraquecimento dessa barreira poder
estimular a produção de citoquinas, implicando em maiores
chances do aparecimento de dermatoses como psoríase e
eczemas em pacientes predispostas .
49
Praticamente não existem referências sobre os efeitos dos
esteróides sexuais sobre as fibras elásticas da pele. Faz-se
menção ao fato de que as mesmas parecem apresentar-se menos
fragmentadas a microscopia eletrônica, após o tratamento,
embora não aumentem em quantidade .
50
Como
apresentado, a pele (e seu colágeno) sofrem influências de
diversos fatores, mas principalmente do envelhecimento solar
e da carência de esteróides sexuais. Ao avaliarmos a
resposta da pele de diferentes locais do corpo ao tratamento
hormonal, devemos considerar que as áreas de exposição solar
não responderão necessariamente, da mesma forma que as áreas
não expostas. Por outro lado, existem outros fatores de
interferência a serem considerados, como por exemplo, a o
índice de massa corpórea, uma vez que a conversão periférica
de estrona pode estar aumentada em mulheres obesas.
Embora a
maioria dos resultados indique que os estrogênios atuam
positivamente na pele, ainda são necessários mais estudos,
principalmente com respeito aos efeitos da TRH sistêmica
para se chegar a conclusões mais definitivas.
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